Depeche, Again!

A Broken Frame 1982
Capa de A Broken Frame (1982) – segundo álbum do Depeche Mode

Haverá mérito em quem escreve (e interesse, da parte de quem eventualmente ler) em noticiar a chegada de uma mercadoria, via Internet?

Isso porque, hoje cedo, ao chegar na Universidade, topei com alguns envelopes no escaninho 41. Eis que um deles continha a edição remasterizada de A Broken Frame, segundo álbum do Depeche Mode, lançado em 1982. O estojo contém o CD (que reouço enquanto escrevo esta nova), além de um DVD com um documentário sobre a banda e um pocket show para promover o disco, gravado na Alemanha, em outubro daquele ano, um mês após o lançamento do título pela Mute Records.

Depeche Mode é, certamente, a banda eletropop que escutei mais (e melhor), desde que ouvi “I just can’t get enough” — mega hit de 1981 e faixa de trabalho de Speak & Spell, primeiro e último álbum com a participação do talentoso Vince Clarke. Hoje, ao deparar com outra edição do CD, voltaram-me flashes de quando passei a acompanhar, com crescente interesse, a trajetória do grupo inglês: a capa da revista Bizz, que eu assinava durante o ensino médio; o show de número 101, gravado no Rose Bowl, em Pasadena, que assisti (e gravei em VHS) no canal Bandeirantes; a propaganda de divulgação de Violator, em 1990; as noites, ao som de Depeche Mode, no Madame Satã, ao final da década de 1990…

Em 1997, a banda foi a trilha sonora muito particular deste que escreve – ocasião em que soube de alguém que gostava muito do álbum Black Celebration. Não tive dúvida, havia escutado o ótimo Ultra e saí catando os CDs que encontrava por onde passasse (nunca voltaria a frequentar o Shopping Eldorado com tamanha assiduidade).

Em março deste ano, tive a oportunidade assisti-los no antigo Parque Antártica. Foi extraordinário, ainda que desconte alguns percalços da volta para casa.

Tenho uma relação incomum com este álbum. Com a saída de Vince Clarke, Martin Lee Gore assumiu a responsabilidade pelas composições do grupo; ele mesmo, autor de todas as faixas do disco, considera que este seja um dos trabalhos mais frágeis da banda. É curioso que eles se sintam dessa forma, a respeito de A Broken Frame. Para mim não deve nada aos outros álbuns. Talvez seja justamente essa faceta mais espontânea, com letras mais ingênuas, aquilo que o diferencie do que se produzia na época. Recordo-me de tê-lo escutado muitas e muitas vezes, especialmente seduzido pelas melodias e arranjos, até memorizar pedaços de quase todas as letras e, na íntegra, a minha predileta, “The Sun and the Rainfall” – a faixa final.

Será difícil explicar porque Depeche Mode tornou-se uma das coisas que mais escutei (e isso já dura três décadas). Será a combinação das guitarras com os teclados e recursos eletrônicos? A vocalização tão bem cuidada? Alguma identificação com o que há de melancólico e combativo em suas letras? O uso inteligente das tecnologias musicais? Não vou me justificar. Fica o convite para que o ouçam, faixa após faixa. Digam-me, quando o fizerem, o que acharam das canções. Com o perdão da pieguice, elas falam direto ao coração (agora, ao som de “The Meaning of Love”).

 

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Meu Professor, Pierre Chauvin

Se papa estivesse vivo, completaria 75 anos amanhã. Ele, que gostava  tanto do número “sete”, silenciou aos 70: conta fácil de fazer.

Meu irmão e eu fomos criados entre a emoção extravasante de minha mãe e os afetos semicontidos de meu pai.

Isso talvez explique o modo como reajo a filmes que tem professores e alunos como protagonistas (Ao Mestre  com Carinho, Sociedade dos Poetas Mortos, A glória de meu pai, Merlí etc).

Sim, porque meu pai era um senhor químico e professor. Ao longo de uma carreira que durou mais de quarenta anos, era idolatrado pelos alunos.

Era destes que subiam as escadarias correndo, enquanto os colegas arrastavam o peso (justificável) do ofício.

Certamente foi graças à forma como agia nos colégios em que lecionou, os numerosos amigos que fez, a alegria que ele irradiava na forma de assobio, a paciência que tinha para conosco, o modo de nos dar boa-noite, altas horas, tocando a ponta de nossos pés, sob a coberta, a maneira de nos despertar, cheio de energia.

Quando soube de meu interesse em lecionar, vivia concedendo conselhos: um professor deve ser simpático (o sorriso abre caminhos), justo (um aluno não deve ser tratado de modo diferenciado em relação ao outro), sábio (o professor deve demonstrar conhecimento; por exemplo, nas aulas de Português, etimologia sempre provoca admiração) e digno (por exemplo, “pega bem” dizer aos alunos que se viaja).

Ele torcia muito com minhas conquistas, fossem elas mínimas ou maiores. Dizia que meu destino seria lecionar em uma universidade federal, onde seria “tratado como rei”. Coisas de pai, o senhor internauta releve.

A última vez em que vi Pierre Chauvin foi no Sujinho da Avenida Ipiranga, esquina com a Rio Branco, mais ou menos às 12h do dia 12 de maio de 2013. Comemoramos, em companhia de Morgana, o aniversário do pai/avô e da neta. Em seguida, visitaram o apartamento de 40m2 na Vila Buarque, para onde eu havia me mudado havia duas semanas.

Dias depois, enviou-me uma mensagem via e-mail, cuprimentando-me pelo novo lar, “charmoso” e “aconchegante”.

Meu pai, que tanto prognosticava a minha “evolução” (releve, era coisa de cientista) e reconhecimento profisional, não testemunhou meu ingresso como professor do curso de Editoração na ECA; não pudemos celebrar mais uma das suas profecias, brindando-a com uma lata de cerveja cada um.

Era homem íntegro, inteligente e simpático, com reserva de emoções que manejava sob algum controle, mas vertia cada vez com mais frequência. Uma vez, disse: “ainda vou assisti-lo dar uma palestra, com um laptop“.

Chegou a assistir uma ou outra aula, numa ONG, ou trabalho que apresentei em algum evento. Fazia elogios (logo ele, que era tão brilhante e inteligente). Mais de uma vez, assistiu a shows das bandas em que toquei.

No final da sua vida, nossas diferenças em termos políticos se evidenciaram. Coisa de somenos, porque sei que ele jamais teria coragem de implementar o que supunha serem as soluções mais adequadas para acabar com a pobreza a a impunidade no país.

O saldo é extraordinário. Tive o privilégio de contar com um artista do giz, das fórmulas e das cadeias de carbono. Um professor extraordinário, amante da natureza e das crianças, que fundia conhecimento com alegria.

Não bastasse o afeto que demonstrava e a força com que nos corrigia e empurrava, legou-me o orgulho de ser professor (talvez uma coisa esquisita de se dizer em nosso país, nos dias de hoje).

Salvo engano, não é todo dia que contamos com um pai que combina seu tanto de John Keating com outro tanto de Merlí.  Nele caberia, como em tão poucos, saudar-nos com “Bom dia, peripatéticos!“, ao que responderíamos: “Oh Captain, my captain!

 

Império do Senso Comum

Quando digo que muita gente anda a proferir asneiras com convicção — e sem refletir no teor das palavras, tampouco na forma como as expressa –, significa que a inteligência cedeu lugar à tacanhice; e a criticidade foi trocada pela confiança cega no palavrório alheio (por mais medíocre que seja a mensagem veiculada e mais brutas as suas intenções).

Pouco importa que a fonte do impropério, repetido pelo “homem de bem” e “trabalhador”, seja um jornalista, em tese, sisudo (e ideolgicamente seletivo) da grande emissora de TV, ou o radialista empoado e histérico, que se pretende reto, direito, íntegro,  defensor da família e dos bons costumes (ainda que a sua estação de rádio divida espaço e horário “nobre” com programas para acéfalos: adoradores de polêmicas ruidosas, rasas e baratas).

Mas, plus ultra, o melhor mesmo é quando o sujeito internaliza os ditos de uma montadora de automóveis, como parece ser a intenção do anúncio veiculado recentemente, durante os intervalos do Globo Rural. No comercial, exibido na emissora com pretensões globalizantes, uma poderosa caminhonete sugere a defesa enérgica do Agronegócio, em meio à paisagem agreste, mas domada pelo homem de calça jeans.

Para isso, a propaganda funde os aparatos tecnológicos do veículo, as formas de (sobre)carregá-lo com sacas e a cara sadia, esforçada e feliz dos homens que enriqueceram do latifúndio. Claro esteja, a peça publicitária omite as formas de exploração semiescravagista — ainda vigentes no Brasil de hoje –; ignora o poder da imperial Monsanto; esquece-se da quantidade de veneno que ingerimos diariamente, para “proteção” da lavoura (esta, devidamente protegida pela indústria toxicômana).

O que fez a montadora de veículos utilitários possantes? Disse, em palavras dançantes, em verde e amarelo, que a novíssima, cara e gigante caminhonete se destina àqueles que estariam cansados de “carregar o país nas costas”. A dúvida, dileto internauta, é saber o que veio antes: a falácia da justa distribuição de terras (claro, em acordo com a meritória região desta necolônia) ou a vinculação entre alto poder aquisitivo e cultivo responsável do latifúndio.

Seria benéfico se se recordasse que o modelo do agronegócio repousa em três séculos e meio de colônia, à mercê dos europeus; que o senhor de engenho deu no coronel e, atualmente, em políticos do Senado e da Câmara Federal. E por falar em divisão equânime do território que a todos pertence (menos a nós), a Lei de Terras data de 1850…

Será esta, apenas  mais uma campanha para escoar a produção de utilitários da empresa norte-americana que, para isso, conta com a adesão ideológica do cliente? Ou se trata da afinação de discursos (entre a montadora e aquele 1%, feito de supostos pseudonacionalistas) dos sujeitos que pretendem disfarçar as disparidades socioeconômicas com a arenga da sobrecarga de trabalho, em fingida defesa dos interesses do país?

 

 

6h18

26 de abril de 2018 d.C. Eram 6h18 da matina.

Na esquina da rua São Domingos com a Major Diogo resplandece a sonoríssima buzina.

Estava claro: a motorista havia combinado dar carona a alguém que morava numa das células do edifício.

Não parou; não desceu do veículo. Afinal, tocar o interfone do apartamento correspondente demandaria manobra muito complexa.

(Já reparou? quem quer aumentar a vantagem do que conta preenche o relato de detalhes bobos. Neste caso, imagino que soaria assim: “O quê? Estacionar o carro; Descer; Abrir, fechar a porta; caminhar até a porta do prédio; tocar o interfone?”)

Ah, as formas de poder. Os motorizados passam velozes, a sugerir a(o) caroneiro que têm mais o que fazer, além de  buscar gente nos edifícios.

Se eu, pedestre semiacordado, tomei susto, aposto que muitos moradores terão acordado  mais cedo para o café (se não, infartado), neste dia.

Dúvida maior: será falha de percepção dos outros? Falta de educação? Ou síndrome de motorista superpoderosa?

 

Lagartixa

Dia desses, apareceu em casa uma lagartixa. Tão pequena que quase a confundi com marca de sujeira em contra-piso. Pude apreciá-la de mais perto, pois não parecia temer este humano: “um lagarto em miniatura, realmente”.

Pois esse minúsculo réptil pousou, restou, acomodou-se. Seu lugar preferido era a soleira da porta que dá no banheiro. Possivelmente havia formigas proporcionais ao seu diminuto tamanho.

Era tão pequena a lagartixa que, por mais apertado que (eu) estivesse, examinava o ambiente antes de entrar.

Por vezes, ela ficava estacionada, como se estivesse a refletir. Numa ocasião, encostei o chinelo em sua caudazinha. Ela se mexeu prontamente. “Essa lagartixa é diferente: mais lenta que as outras”.

Com seus olhos quase invisíveis (como sabê-los se fechados?), nem mesmo sob a antiga luz da graça seria mais fácil vê-los. Cogitei: estaria dormindo? Ou tão tranquila, por não sofrer com agressões humanoides, que se permitiu descansar, estirada sobre o ladrilho?

Hoje cedo, voltei ao banheiro. Lá estava ela, feito marca d’água, no meio do recinto. “Está ganhando confiança”. Imóvel, como das outras vezes. Toquei a cauda: não se mexeu. “As formigas se aproximam”.

Lagartixa não é mais.

Tão frágil, pequena, resignada e indefesa, num espaço proporcionalmente enorme, cogitei dar-lhe nome: Democracia. Quanto às formigas, escolha o leitor quem mais lhe aprouver, a julgar pela covardia e pequenez em meio aos homens.

Catorze anos em duas longnecks

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Foi assim: estava “passeando” o olhar pelo Facebook, quando topeicom uma das mensagens ácidas e divertidas de Agata Appel. Eis que, numa delas, ela perguntava quem gostaria de (re)vê-la, já que estava nas imediações da Avenida Paulista.

Enviei mensagem imediata, convidando-a, em tom bonacheiro, para tomar um Nespresso, “What Else”? Resposta de Agata: “Estou descendo”, para minha grande alegria.

Meia hora depois, por uma série de coincidências, passou por aqui. Trouxe duas longnecks (e uma latinha de cerveja desalcoolizada, just in case) e três pastéis — prevendo que minha filha chegaria em seguida.

Não sei se Agata sabe o que ela representa nesta jornada; sei que, a cada vez que nos reencontramos, conversamos horas ininterruptamente. Com amigas desse naipe, a sede de viver aumenta em dobro, talvez porque as alegrias de um contagiam as novidades do outro; e as frustrações, que dizem respeito à cegueira coletiva, reforcem a nossa solidaridade e desejo de enxergar um mundo diferente.

Muito obrigado, Agata, pela gentil visita. Aproveito para me desculpar por aquele problema de comunicação que tivemos, anos atrás. Acho quase tudo risível, hoje; e tendo a levar cada vez mais a sério e intensamente as relações que tanto valem a pena, o pastel e a cerveja.

Um beijo fraterno.

J.P.C., Planeta Terra, 30.III.2018 d.C.*

[*Sim, porque vives em cruzeiros marítimos e as paradas em terra firme (firme?) são breves e esporádicas].